Elaine Cruz

Elaine Cruz é psicóloga clínica e escolar, com especialização em Terapia Familiar, Dificuldades de Aprendizagem e Psicomotricidade. É mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense, professora universitária e possui vários trabalhos publicados e apresentados em congressos no Brasil e no exterior. Atua como terapeuta há mais de trinta anos e é conferencista internacional. É mestre em Teologia pelo Bethel Bible College (EUA) e membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Como escritora recebeu o 'Prêmio ABEC de Melhor Autora Nacional' e é autora dos livros “Sócios, Amigos e Amados”, “Amor e Disciplina para criar filhos felizes” e o mais recente, "Equilíbrio Emocional", todos títulos da CPAD.

Vitimização: o ato de transferir responsabilidades

A Bíblia não nega sofrimentos e dores. Desde o Éden, quando o pecado adentrou a humanidade, todos nós vivenciamos dores no corpo e sofrimentos na alma. 

Ao longo dos textos bíblicos encontramos histórias verídicas, de pessoas reais, que vivenciaram injustiças, frustrações e doenças que marcaram sua existência.

Jó foi ferido cruelmente no corpo e na alma, José foi traído pelos irmãos, Davi foi perseguido injustamente por Saul, e Jeremias foi rejeitado pelo próprio povo. 

Sara, Rebeca e Ana experimentaram a dor da infertilidade. Jacó foi enganado inúmeras vezes pela parentela. Daniel e seus amigos tiveram seus privilégios hebreus suspensos, foram separados dos familiares ainda adolescentes, e foram lançados em fornalha e cova de leões. 

Vários apóstolos foram presos e mortos a espada. Estevão foi apedrejado. Paulo sofreu inúmeros açoites e espancamentos, além de ser traído inúmeras vezes. Mas ninguém sofreu mais do que Jesus, que mesmo sem ter conhecido pecado, padeceu no lugar de toda humanidade, suportando, por amor, a vergonha, a culpa e as dores de todos nós.

O mais interessante é que, por mais que tenhamos relatos de sofrimentos atrozes, nenhum destes homens ou mulheres construíram suas identidades a partir do papel de vítima - o que, infelizmente, acontece com muita frequência nos nossos dias. 

A vitimização paralisa, distorce a realidade e impede o crescimento espiritual. Não é uma doença, mas uma postura interior, em que a pessoa passa a se perceber constantemente como vítima, atribuindo toda dor, fracasso ou frustração exclusivamente às circunstâncias, às pessoas ou até a Deus. 

Adão, ao ser confrontado por seu pecado, culpa Deus por ele lhe ter dado Eva. Eva também se faz de vítima, culpando a serpente, buscando justificar seu erro. E o povo de Israel maculou seu futuro quando, mesmo liberto do Egito, passou a murmurar no deserto, assumindo uma mentalidade de vítima: “Por que nos tiraste do Egito?” (Êx 17:3).

A Bíblia relaciona os muitos sofrimentos de Paulo, que é um exemplo claro de alguém que sofreu muito, mas não se vitimizou. Enquanto era derramado como oferta de bebida, esvaziado de si mesmo, ele declarou: “Em todas estas coisas somos mais que vencedores” (Rm 8:37). Paulo não se permitiu assumir a identidade de vítima, não permitiu que seu chamado e intimidade com Deus fossem afetados por acusações e ressentimentos. 

É certo que todos nós passamos por momentos em que somos as vítimas, vivenciando consequências das ações tomadas por governos, empresas, líderes e pessoas próximas a nós. Mas mesmo enquanto vítimas de injustiças e maldades, não podemos assumir a identidade de vítimas, cristalizando a dor e a transformando em um lugar permanente.

A prática da vitimização afeta a fé, distorce a realidade, e é uma ferramenta utilizada para evitar responsabilidade ou manipular situações. O foco está sempre no outro: “Vejam o que fizeram comigo”, “Eu só respondi mal porque me irritaram”, “Eu só bebi porque fui criado numa casa com muita bebida”,  “Eu só xinguei porque ele me agrediu”, “Eu não estou congregando em uma igreja porque alguém me feriu!”. 

Ao se fazer de vítima, buscando validação, isenção ou controle dos outros, transformando a dor em argumento, a pessoa passa a conviver com mentiras que conta a si mesma. Na vitimização passamos  a medir o amor de Deus pelas circunstâncias, e não pela cruz, e deixamos de assumir a responsabilidade espiritual pela forma como reagimos às adversidades.

Portanto, a primeira coisa a fazer frente a situações difíceis é avaliar nossas atitudes, assumindo os erros ou pecados que cometemos. E a conscientização do que fizemos precisa nos conduzir ao segundo passo, que é assumir a responsabilidade pelas nossas ações, inclusive perante Deus, buscando seu perdão e restauração. 

Não devemos ficar aprisionados na vitimização. Com o passar dos dias, as pessoas à nossa volta vão se cansar da nossa autocomiseração, não vão aceitar as nossas desculpas mentirosas, e vão se afastar. Afinal, a vida passa rápido, e requer de todos nós a maturidade necessária para confrontar os problemas, superar as dores, lidar com as injustiças e suportar os sofrimentos. 

Precisamos decidir pela verdade, assumindo as consequências dos nossos atos, buscando a maturidade e abraçando a resiliência. Como Paulo, precisamos guardar a fé, nos esforçar para terminar a corrida e declarar: “esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” ‭‭(Filipenses‬ ‭3‬.14,14).

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Elaine Cruz 

*A CPAD não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos publicados nesta seção, por serem de inteira responsabilidade de sua(s) autora(s).

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